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DGTL Amsterdam: o festival que tenta provar que uma rave pode ser sustentável

DGTL — Amsterdã, Holanda

Existe uma tensão que qualquer festival de música eletrônica de grande porte carrega consigo, mesmo que não goste de admitir: geradores a diesel, milhares de copos plásticos descartados, toneladas de comida jogada fora, multidões chegando de carro ou de avião. É contra esse pano de fundo que o DGTL Amsterdam construiu sua identidade desde 2013, tentando responder a uma pergunta incômoda — dá para organizar uma rave de peso e, ao mesmo tempo, levar a sério o impacto ambiental que ela deixa para trás? Mais de uma década depois, o festival holandês segue sendo um dos experimentos mais ambiciosos do mundo nessa direção, e sua trajetória diz muito sobre como a cena eletrônica europeia está lidando com a própria pegada ecológica.

Uma rave pensada como sistema, não como evento

Desde o início, o DGTL se recusou a tratar sustentabilidade como um departamento de marketing separado da produção do evento. A proposta sempre foi estrutural: pensar o festival como um sistema fechado, no qual entrada e saída de recursos — comida, água, energia, resíduos — são planejadas com o mesmo cuidado dedicado ao line-up. Isso colocou o DGTL num grupo pequeno de festivais eletrônicos que tratam a palavra "circularidade" como compromisso operacional, e não como slogan estampado em banner.

Na prática, isso significa metas concretas de circularidade que envolvem desde a escolha de fornecedores até o destino final do lixo orgânico gerado pelo público. Comida que sobra e resíduos orgânicos do festival passam por processos de compostagem no próprio local do evento, fechando um ciclo que, na maioria dos festivais tradicionais, simplesmente termina num aterro sanitário. É um detalhe que parece pequeno, mas que exige logística, treinamento de equipe e uma mudança de mentalidade de milhares de pessoas que, por padrão, não pensam em separar resíduos numa pista de dança às três da manhã.

Direto ao ponto

Banheiros a vácuo e o problema invisível da água

Um dos símbolos mais curiosos — e menos glamorosos — do compromisso ambiental do DGTL é a adoção de banheiros a vácuo. É o tipo de infraestrutura que ninguém vai postar no Instagram, mas que resume bem a filosofia do festival: sustentabilidade real geralmente mora nos detalhes operacionais chatos, não nos gestos grandiosos e fotogênicos. Sistemas a vácuo usam uma fração da água necessária pelos banheiros químicos ou hidráulicos convencionais usados em festivais ao ar livre, reduzindo drasticamente o consumo de um recurso que grandes eventos costumam desperdiçar em escala industrial sem que o público perceba.

Essa atenção a sistemas de saneamento pode parecer um detalhe secundário diante de um line-up de peso, mas é exatamente esse tipo de escolha que separa um festival que fala sobre sustentabilidade de um festival que constrói sustentabilidade na própria arquitetura do evento. A pauta ambiental, nesse caso, não compete com a experiência do público — ela é parte da experiência, ainda que de forma discreta.

Expansão internacional sem perder a curadoria musical

Outro capítulo importante da história do DGTL é sua expansão para fora da Holanda, incluindo uma edição no Brasil. Levar esse modelo operacional para outros países e outras legislações ambientais não é trivial: infraestrutura de compostagem, banheiros a vácuo e metas de circularidade dependem de fornecedores locais, de parcerias com autoridades municipais e de uma cultura de público disposta a colaborar com práticas que, em muitos lugares, ainda são incomuns em eventos de grande escala. Ainda assim, o festival manteve sua proposta original ao se internacionalizar, provando que o conceito não era exclusivo do contexto holandês, mas replicável — com ajustes — em outros mercados.

O que chama atenção é que essa preocupação ambiental nunca veio ao custo da música. O DGTL manteve sua reputação de curadoria de techno e house de vanguarda, com line-ups que dialogam com o que há de mais relevante na cena eletrônica europeia contemporânea. Isso é importante porque desfaz uma suposição comum: a de que festivais "verdes" precisam necessariamente soar mais brandos ou mais comerciais para justificar o discurso ambiental. O DGTL prova o contrário — é possível manter peso sonoro e ainda assim repensar cada etapa da cadeia logística de um evento.

Sustentabilidade em festival não é sobre banner na entrada — é sobre o que acontece com o lixo, a água e a comida quando as luzes do palco se apagam.

Há também um efeito cascata que vale mencionar: quando um festival do tamanho do DGTL adota certos padrões, fornecedores de equipamento de banheiro, empresas de compostagem e prestadores de logística de eventos passam a desenvolver soluções pensando nesse tipo de demanda. Ou seja, o impacto de um festival "verde" não fica restrito ao próprio evento — ele pressiona toda uma cadeia de fornecedores a oferecer alternativas mais sustentáveis, o que barateia e viabiliza essas soluções para outros organizadores que queiram seguir caminho parecido no futuro.

O DGTL Amsterdam não resolveu sozinho o problema ambiental da indústria de festivais — nenhum evento isolado conseguiria. Mas, ao tratar sustentabilidade como parte da engenharia do evento, e não como um apêndice cosmético, o festival holandês construiu um modelo de referência que outros organizadores ao redor do mundo têm observado com atenção. Numa indústria que cresce em receita e em escala ano após ano, experiências como essa mostram que existe, sim, espaço para repensar como uma rave é construída — da pista de dança até a caçamba de lixo.

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