Basta olhar para o topo das listas de booking da música eletrônica em 2026 para ter a impressão de que a representatividade de gênero na cena nunca esteve tão bem resolvida. Amelie Lens, Peggy Gou, Charlotte de Witte e Nina Kraviz estão entre os nomes mais requisitados do circuito mundial, headlineando festivais que décadas atrás dificilmente reservariam o horário nobre do palco principal para uma mulher. Mas essa visibilidade no topo absoluto da pirâmide esconde um dado bem menos animador quando se olha para a base: segundo denúncias recentes da própria cena, a diversidade de gênero nos line-ups como um todo está, na verdade, recuando.
Um retrocesso que os números começam a confirmar
O relatório IMS Electronic Music Business Report 2025/26, uma das referências mais respeitadas de dados sobre a indústria da música eletrônica global, trouxe um indicador revelador sobre esse descompasso. De acordo com o levantamento, mulheres representam 15% da base de usuários registrados da AlphaTheta — fabricante por trás de equipamentos de DJ amplamente usados na cena, como os controladores e mixers da linha Pioneer DJ — um crescimento em relação aos 13% registrados em 2023. À primeira vista, um crescimento de dois pontos percentuais em três anos pode até parecer positivo, mas o próprio ritmo lento desse avanço evidencia o tamanho do desequilíbrio estrutural que ainda existe: mesmo depois de anos de discurso público sobre diversidade, mulheres continuam representando uma fatia muito pequena de quem efetivamente maneja o equipamento técnico da profissão.
Esse dado de adoção de equipamento é importante porque funciona como um proxy indireto, mas revelador, de quantas mulheres estão de fato entrando e permanecendo na prática técnica do DJing — não apenas se apresentando ocasionalmente, mas construindo carreira contínua na cabine. E é justamente sobre essa camada mais ampla da indústria, abaixo do topo absoluto ocupado por nomes já consagrados, que o alarme começou a soar com mais força em 2026.
O padrão observado na música eletrônica não é um caso isolado: outras áreas de forte componente técnico, da produção de estúdio à engenharia de som ao vivo, historicamente também apresentaram baixíssima presença feminina, mesmo quando a presença de mulheres como intérpretes ou vocalistas nunca foi um problema. A cabine de DJ ocupa um lugar particular nesse espectro, porque combina performance ao vivo — área em que mulheres sempre estiveram presentes na música em geral — com domínio técnico de equipamento, área historicamente tratada como território masculino por default. Romper essa barreira dupla exige mais do que visibilidade de algumas estrelas: exige mudança na forma como o próprio aprendizado técnico é oferecido, incentivado e validado dentro da cena, desde os primeiros passos com um controlador até a defesa de um set em um line-up profissional.
Direto ao ponto
- Segundo o IMS Electronic Music Business Report 2025/26, mulheres representam 15% da base de usuários registrados da AlphaTheta, ante 13% em 2023.
- O coletivo britânico NOT BAD FOR A GIRL publicou uma carta aberta denunciando queda na diversidade de gênero nos line-ups de clubes e festivais em 2026.
- A carta aponta bookings em queda para mulheres, pessoas trans e não-binárias na cena eletrônica.
- O retrocesso ocorre mesmo com nomes como Amelie Lens, Peggy Gou, Charlotte de Witte e Nina Kraviz no topo das listas globais de booking.
- O contraste entre o sucesso de poucas estrelas no topo e a estagnação na base é central ao debate atual sobre representatividade na cena.
A carta aberta que expôs o desconforto da cena
Foi justamente esse contraste entre o brilho do topo e a estagnação da base que motivou o coletivo britânico NOT BAD FOR A GIRL a publicar, em 2026, uma carta aberta denunciando o que descreveram como um retrocesso na diversidade de gênero dos line-ups de clubes e festivais. O documento aponta uma queda nos bookings não apenas de mulheres cis, mas também de pessoas trans e não-binárias — grupos que, segundo o coletivo, vinham conquistando espaço gradual na cena nos anos anteriores e agora observam esse avanço perder força ou até reverter em determinados circuitos.
A carta reacende uma tensão que a cena eletrônica nunca resolveu completamente: o fato de que ter algumas mulheres extremamente bem-sucedidas no topo do circuito não equivale, automaticamente, a uma indústria estruturalmente mais equitativa. Promotores podem apontar para Amelie Lens ou Charlotte de Witte como prova de que "a cena mudou", enquanto, na prática, o número de mulheres, pessoas trans e não-binárias contratadas para os palcos secundários, para os horários menos nobres e para os eventos menores de club continua desproporcionalmente baixo em comparação com seus pares homens.
Parte da explicação para esse contraste, segundo quem estuda o booking da cena, está em dinâmicas menos visíveis do que a simples vontade de contratar de forma mais diversa: redes de indicação informais entre promotores, agentes e produtores tendem a reproduzir os mesmos contatos de sempre, e mulheres, pessoas trans e não-binárias muitas vezes ficam de fora justamente desses circuitos informais de confiança que definem quem recebe a primeira oportunidade em um festival grande. Sem mudança estrutural nesses bastidores, o crescimento no topo do line-up dificilmente se traduz em crescimento equivalente nas camadas intermediárias e iniciais da carreira de uma DJ.
Quatro nomes no topo não fazem uma indústria equitativa — fazem quatro exceções que provam a regra.
O desafio que fica para a cena em 2026 é justamente esse: transformar o sucesso inegável de suas maiores estrelas femininas em pressão real por mudança estrutural mais ampla, em vez de deixar que esses nomes sirvam de álibi confortável para adiar o debate mais difícil sobre quem, de fato, tem acesso regular à cabine, ao palco e ao microfone em cada nível da indústria — do festival mainstage ao clube de bairro.
Parte da resposta que ativistas e coletivos como o NOT BAD FOR A GIRL vêm propondo passa por mudanças concretas na forma como line-ups são construídos: cotas mínimas de representatividade em festivais, programas de mentoria técnica voltados a mulheres e pessoas não-binárias que querem entrar no DJing, e maior transparência pública sobre a composição de gênero dos próprios cartazes de eventos. Sem esse tipo de pressão organizada e contínua, argumentam, o risco real é que a cena eletrônica continue celebrando publicamente suas exceções de sucesso enquanto a base da pirâmide profissional segue praticamente inalterada ano após ano — um problema que números isolados de crescimento, por menores que sejam, não resolvem sozinhos.